segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

'Se a oposição questionar o Bolsa Família, estará morta', diz cientista político



Por Brasil Econômico - Por Eduardo Miranda e Paulo Henrique de Noronha | - Atualizada às
            
  • Brasil Econômico
O cientista político Jairo Nicolau acredita que a próxima eleição presidencial será bem diferente daquela que elegeu a presidenta Dilma Rousseff em 2010. Há muitas incógnitas desta vez: desde a candidatura de Eduardo Campos (PSB), um político ainda muito pouco conhecido nacionalmente, até a indefinição sobre o financiamento privado das campanhas - que ele condena, embora seja contrário à proibição de forma abrupta, em pleno ano eleitoral. "Temo por uma onda de caixa 2. A mudança deve ser gradual. E deve ser discutida pelo Congresso, não pelo Supremo".
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Márcio Mercante
Cientista político Jairo Nicolau
Nicolau diz que a macroeconomia não deverá ser um tema dominante na campanha de outubro ("como não foi nas anteriores") e recomenda cautela nas críticas aos programas sociais do governo. "Candidatos da oposição que tentarem entrar numa discussão sobre o Bolsa Família estarão mortos", sentencia.
A eleição de 2014 será uma repetição de 2010?
A eleição da presidenta Dilma Rousseff praticamente repetiu o resultado de Lula, em 2006, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Ou seja, concentração dos votos do PT nos municípios mais pobres do Nordeste e do Norte e dos votos do PSDB nos municípios mais ricos. Mas 2014 não deverá ser assim. Há uma série de diferenças, variáveis que não são decisivas, mas que são importantes. A saber: a definição do lugar de Marina Silva na chapa de Eduardo Campos (PSB); a candidatura ou não do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa; o vice da chapa de Aécio Neves (PSDB); a decisão do STF sobre a proibição do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas; e a chegada do candidato do Psol, Randolfe Rodrigues, que poderá ter um desempenho em torno de 5 pontos percentuais.
Por que Randolfe é importante?
Há uma insatisfação por parte da esquerda brasileira com o governo Dilma Rousseff. Isso ficou explícito na greve de vários segmentos, em 2013. O Randolfe pode aglutinar um pouco da insatisfação que o atual governo gerou. Ele foi do PT e é crítico de algumas posições adotadas no ano passado, como as concessões. Numa eleição muito disputada, ele pode fazer certo estrago e viabilizar o segundo turno.
Quais seriam as consequências da proibição do financiamento privado de campanhas?
Independentemente do efeito jurídico, é preciso dizer que as campanhas no Brasil são caríssimas, particularmente para presidente, que custam mais de R$ 100 milhões. Uma campanha para governador está na faixa de R$ 15 a 20 milhões, dependendo do estado. Na última eleição, praticamente todos os deputados federais eleitos gastaram R$ 1 milhão cada. Nas próximas eleições, isso deve chegar a R$ 2 milhões. As consequências, caso a medida seja aprovada, é que as campanhas ficarão bem mais baratas e artesanais, e os marqueteiros terão que renegociar preços. Infelizmente, temo por uma onda de uso do caixa 2. Os candidatos se acostumaram a um certo padrão e não saberiam como se deslocar sem um jatinho, sem pesquisa qualitativa de área, sem um marketing padronizado para o país inteiro. É muito difícil cortar tudo isso da noite para o dia.
É claro que nós sabemos da criatividade nesse campo, você não precisaria necessariamente utilizar um caixa 2 como se via nos anos 80, com dinheiro sendo deslocado em sacos e malas. Mas você pode usar artifícios, como o de uma empresa imprimir panfletos de candidatos e dizer que imprimiu para uso próprio, ou pagar pesquisas e colocar gasolina no carro da campanha. Não estou discutindo o mérito da decisão do STF, que é equivocada para este contexto, com efeitos imediatos e avassaladores. A campanha de 2010 teve um valor total de R$ 5 bilhões, a de outubro deve custar R$ 7 bilhões. 80% disso vêm de empresas privadas. Significa tirar uns R$ 5 bilhões do mercado de campanha.
E a capacidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para fiscalizar isso?
Não existe. O TSE não tem auditores suficientes, não tem capacidade técnica. A gente observa que as contas das campanhas demoram muito para serem aprovadas. Sabemos que o TSE tem muita dificuldade para fiscalizar a engenharia contábil dos milhares de candidatos.
Qual seria o melhor modelo?
Precisamos reformar o modelo de financiamento da política de um modo geral. Significa reformular o fundo partidário e mais o sistema de financiamento de campanha, que atualmente é privado, embora os candidatos tenham um tempo de TV - um grande benefício - invejado por candidatos do mundo inteiro. Nos Estados Unidos, as campanhas são caríssimas e os candidatos têm que comprar as inserções. O Brasil tem o sistema mais generoso de concessão de tempo de TV e rádio para os candidatos. Precisaríamos de uma nova legislação, com punições mais severas para quem a desrespeitasse, um sistema de fiscalização mais engenhoso - talvez por amostragem e não com essa obsessão de fiscalizar todos os candidatos. Temos que caminhar para o fim da doação de empresas privadas. Nos EUA, já se proibiu que as empresas dessem recursos diretamente para os candidatos desde 1907. Eu tenho muito simpatia pela lei francesa, aprovada no final dos anos 90, que tinha um sistema parecido com o nosso e migrou para a proibição, que é a posição da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a que o STF quer fazer da noite para o dia. A premissa é muito boa, mas num sistema onde há essa forte dependência, é preciso pensar numa transição. E isso deve ser discutido pelo Congresso, não pelo Supremo.
Após governar o país por oito anos, o PSDB perdeu espaço?
O PSDB está há 11 anos na oposição parlamentar e o que evitou o esvaziamento mais severo do partido foi o fato de ele governar Minas Gerais e São Paulo com governos mais ou menos bem-sucedidos. Além disso, ele tem uma bancada grande na Câmara e no Senado. É um desenho de polarização que se repete há cinco eleições: duas de FHC, duas de Lula e a última, da Dilma. Novamente, o PSDB vai ser um ator decisivo com chances de polarizar com a presidenta Dilma.
Eduardo Campos é um risco para o PT no Nordeste?
Se Eduardo Campos conseguir entrar com força no Ceará e na Bahia, ele pode, sim, afetar a eleição de Dilma. Mas ele é uma grande incógnita. Fora da política, é pouco conhecido da população. Eu, que acompanho política, conheço muito pouco das opiniões dele. Há outra incógnita: São Paulo, que é território do PSDB, é um estado que, pela primeira vez, vai votar num candidato tucano para presidente que não é de lá. Se São Paulo acolher bem o Aécio, ele terá força para enfrentar Dilma.
Aécio quebrou uma linha sucessória paulistana no PSDB...
As bases eleitorais mais fortes, tanto do PT quanto do PSDB, estão em São Paulo. O mesmo desafio encontrava o PT, mas várias lideranças naturais foram queimadas por conta dos escândalos - nomes como Antonio Palocci e José Dirceu eram a aposta de todos os analistas no primeiro governo Lula. Já o PSDB de São Paulo não tem uma liderança jovem, emergente. Os nomes ventilados seriam, novamente, o dos veteranos Geraldo Alckmin e José Serra. No caso do Alckmin, ele tem muito mais chances de se reeleger como governador de São Paulo do que numa disputa presidencial. Em 2010, o Aécio abriu mão da candidatura, agora, vem se tornando uma liderança natural.
Ainda existe esquerda e direita no Brasil?
As pesquisas de opinião mostram que, de um modo geral, o eleitor brasileiro não é ideológico, embora haja um segmento pequeno que se orienta ideologicamente. Por isso, chutei em 5% essa insatisfação ideológica com o governo Dilma migrando para o candidato do Psol. Nas últimas eleições, Lula e Dilma não foram para o segundo turno por conta de uma média de 4% dos votos. Com um candidato desses, repito, é possível viabilizar um segundo turno.
Alguns analistas disseram que o PSDB gostaria de ver no cenário uma candidatura de esquerda, ou mesmo Marina Silva, para provocar o segundo turno.
Se tivesse que apostar hoje, eu diria que vai haver segundo turno. E não digo isso pelas pesquisas, porque, em nenhuma eleição tivemos candidatos tão pouco conhecidos. Em segundo lugar, como o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, disse em entrevista ao Brasil Econômico, o calendário eleitoral está apertado por conta da Copa do Mundo aqui no Brasil. Com o desconhecimento dos nomes, as pesquisas servem agora para quase nada. Estou apostando no segundo turno pelo que aconteceu de 2002 para cá. As eleições presidenciais no Brasil têm tido resultados muito apertados. Dilma ganhou em 16 estados e perdeu em 11. Nunca um candidato à Presidência tinha perdido em tantos estados. E tudo isso logo depois de Lula sair da Presidência com altíssima aprovação. Agora, Dilma não terá a economia tão boa quanto em 2010, não terá Lula tão próximo dela como naquela campanha. Então, mesmo desconhecendo o potencial eleitoral de Eduardo Campos e Aécio Neves, eu aposto no segundo turno.
Faz sentido antecipar campanhas para compensar o calendário apertado?
Quem inaugurou isso foi o ex-presidente Lula, quando anunciou, no ano passado, a importância da reeleição da Dilma. Aquilo gerou na oposição a necessidade de correr um pouco. Percebo uma ansiedade em militantes do PSDB para uma definição mais forte do Aécio, porque ele não está muito convincente, não se porta muito como candidato. Mas, no atual cenário, não é tão grave. O momento, agora, é para viajar, tentar conquistar novos eleitores, conversar com o meio empresarial, criar redes com a imprensa, fazer costuras com os governos estaduais e alianças políticas.
A Dilma tem um favoritismo amplo nas pesquisas...
Mas acho que é um favoritismo artificial, como era artificial aquele favoritismo da Marina em 2010. Parte do voto em Marina deveu-se a uma mudança de última hora, um voto útil para viabilizar o segundo turno. Algo que aconteceu em menor escala, na eleição de 2006, com o Cristovam Buarque (PDT).
As manifestações de rua e o mensalão terão impacto na eleição?
O estrago maior do mensalão foi em 2006. Ali, o PT perdeu parte da classe média simpatizante do partido e isso se traduziu numa mudança do perfil da bancada. Naquele ano, lideranças de opinião do partido e vários outros tiveram votações menores. A bancada encolheu, perdeu muitos votos de legenda. Em relação às manifestações, quanto mais ficamos distantes delas, mais elas parecem que tiveram um efeito circunscrito no tempo. Naquele momento, a dúvida era se elas afetavam estruturalmente a política brasileira - um movimento de voto nulo, a criação de um partido que capitalizasse isso, algum nome que aparecesse etc. Só que esses fatores mais estruturais, apesar da rejeição aos partidos e ao Legislativo, não aconteceram. Os protestos tiveram conquistas pontuais, como a aceleração de algumas leis que tramitavam no Congresso e o impedimento do aumento das passagens de ônibus. Eles foram superestimados, na época, mas vimos que não deu certo no 7 de Setembro e em outras tentativas. Acho que, dificilmente, teremos manifestações naquela escala, embora meus alunos, que militam no movimento estudantil, digam que haverá novo ciclo. Havia um contraste inevitável na Copa das Confederações. Tínhamos temas variados nas reivindicações de junho e, ao mesmo tempo, estavam sendo inaugurados estádios que eram templos de conforto. Daí, surgiu a deliciosa expressão "Padrão Fifa". E todo mundo começou a exigir hospital, educação e transporte com o "Padrão Fifa". Esse contraste foi acachapante. Mas o simbolismo morreu, porque a Copa foi jogada, todo mundo foi aos estádios reformados e a piada ficou repetitiva.
Acho difícil que as manifestações aconteçam novamente com aquele mesmo magnetismo. Apoio popular, massivo, haverá apenas se algum tema capturar a população. Já o efeito desses protestos sobre a imagem de alguns governantes, esse parece ser definitivo. Sérgio Cabral e Eduardo Paes são exemplo. A Dilma sofreu muito, mas não havia um alvo claro em relação ao governo federal. Estive em algumas dessas manifestações e não lembro de ter lido nenhum cartaz contra a presidenta, pessoalmente. Mesmo assim, as pesquisas mostravam que todos os governantes, seja do Legislativo, do Executivo, das esferas municipal, estadual e federal, todos tiveram queda de popularidade. E os alvos foram muito mais as instituições públicas do que os símbolos econômicos - era mais contra a elite política. Nos Estados Unidos, houve o Occupy Wall Street. Aqui, o anticapitalismo das manifestações era, no máximo, quebrar agências bancárias.
Acha que Dilma se saiu bem ao responder aos protestos?
Ela foi bem avaliada ao se pronunciar em cadeia nacional. A taxa de preferência dela pelos eleitores em relação à de aprovação enquanto presidenta, hoje, está inflada porque ela é a candidata mais conhecida. Por isso, eu digo: parem tudo e esqueçam um pouco as pesquisas. Sei que é difícil, porque ficamos curiosos, mas nada aconteceu na opinião pública, está tudo mais ou menos parado.
Como fica o quadro dos estados?
Em Minas, sem o Aécio, e no Rio, sem o Cabral, elas ficam mais abertas, ainda que no estado mineiro o quadro seja mais previsível, porque lá existe a polarização partidária. O Rio não tem PSDB nem PT fortes. O PT já teve bons candidatos a governador, mas só passou para o segundo turno em 2002, na eleição da Benedita da Silva contra a Rosinha Garotinho. O PSDB chegou a governar o Rio. Curiosamente, tanto Eduardo Paes quanto Sérgio Cabral são egressos do partido. Mas, no Rio, o PSDB sempre foi muito frágil. Em Pernambuco, onde Eduardo Campos sai do governo com aprovação espetacular, ainda assim seu partido terá trabalho para enfrentar a candidatura do senador Armando Monteiro (PTB). Na Bahia, onde o PT está no governo e não foi muito bem avaliado, a eleição também será disputada. São Paulo também tem agora um candidato forte do PT, o Alexandre Padilha (ministro da Saúde). Há tempos, o PT não era tão competitivo naquele estado - justo agora que o governador Alckmin enfrenta seu pior momento. Quanto ao Rio, nunca vi uma eleição tão aberta. Lembra muito o pleito de 1992 para prefeito, quando Cesar Maia (DEM) passou ao segundo turno com 12%. Eram dezenas de candidatos, cada um com 5%. A eleição do Rio é completamente imprevisível.
Caso o Eduardo Campos faça um discurso mais à esquerda, como fica a Dilma? Aécio fará um discurso claro de direita?
O último debate de direita e esquerda que fez algum sentido para a população foi o de 2006, no segundo turno, com o discurso sobre as privatizações, que fez um estrago na candidatura do Alckmin. Ele demorou a responder e aquilo foi um diferencial. Lembro que o Francisco de Oliveira, um dos economistas mais críticos ao governo Lula, disse: "Olha, já que polarizou esquerda e direita, com todas as críticas que eu faço ao governo Lula, eu o apoio". Mas não acho que o eixo do debate político do Brasil seja uma agenda de esquerda contra direita. Até porque essas coisas ficaram muito confusas, ainda mais depois das concessões do último ano no governo Dilma, além das alianças do Planalto com setores da centro-direita. Certamente, a oposição tem que apostar no discurso de que está chegando ao fim um ciclo petista, que diminuiu a desigualdade, mas que o Brasil tem outros desafios, e vamos olhar para a frente. É um discurso da modernização, em áreas que, consensualmente, ficaram em segundo plano tanto no ciclo do PSDB quanto no ciclo petista. O PAC não teve o impacto que se imaginava, o sistema de saneamento das cidades brasileiras é caótico. Ou seja, se avançou muito pouco nesse pacote que se convencionou chamar de infraestrutura. A oposição precisa de uma nova agenda.
Já o governo deve ir em defesa de um discurso retrospectivo. Se pudéssemos resumir a agenda da eleição presidencial, ela seria um aprofundamento de uma agenda social. A macroeconomia não tem sido um grande tema das últimas eleições, por conta de um certo consenso a respeito das grandes diretrizes. Mantido o atual quadro econômico, que é o que todos estão desenhando, não vai haver uma piora na economia. Acredito que o debate será sobre o aprofundamento da melhoria da renda, da capacidade de compra e da redução das desigualdades. Os candidatos da oposição que tentarem entrar numa discussão sobre o Bolsa Família estarão mortos.
Nas suas palestras para empresários e economistas, o que tem ouvido sobre a política brasileira?
No primeiro semestre do ano passado, havia muito mais otimismo e uma avaliação positiva do governo Dilma. Do segundo semestre para cá, alguns segmentos da elite empresarial querem apostar em alternativas a esse governo.
Isso coincide com as manifestações de rua?
Acho que não. Tem mais relação com a política econômica, alguma política errática e demorada na área de privatizações. Sinto que houve uma degradação da avaliação do governo, focada nas políticas macroeconômicas e na equipe econômica. Eles têm uma visão muito pessimista da elite política brasileira e do sistema político brasileiro. Por outro lado, sabem que as coisas funcionam, que talvez não seja o partido que eles querem, mas o sistema funciona. Eles querem saber se a oposição pode ganhar, quais suas chances, não querem saber da política em si, querem saber da corrida presidencial. Há uma insatisfação difusa, mas não a ponto de criar um partido liberal clássico, ou de direita. Dificilmente, você terá um candidato de oposição dizendo que a questão central do Brasil é o tamanho da carga tributária, que é ter menos Estado na economia, fazendo as reformas liberalizantes, diminuindo os benefícios do seguro-desemprego, aumentando a idade da aposentadoria. Nós não temos uma direita liberal. Dos dois candidatos da oposição, um, Eduardo Campos, é egresso da base governista, sempre foi mais identificado com a esquerda moderada. E o Aécio a gente tem mais ou menos alguma ideia, porque conhecemos os economistas do PSDB, com políticas econômicas de direita que, na Europa, seriam consideradas de centro. Mas não temos uma explicitação de posições à direita.
Como os partidos brasileiros estão lidando com o envelhecimento dos quadros? Para onde a militância está migrando?
Infelizmente, não temos, no Brasil, pesquisas sólidas sobre o perfil dos partidos. Mas, minha observação - que é uma impressão e não uma pesquisa - é que os jovens que estão entrando hoje no "mercado político" aos 20 anos de idade são muito diferentes por razões de toda ordem. São mais escolarizados que as gerações anteriores, mais informados e totalmente socializados digitalmente. Eles falam da política como se fosse um mundo totalmente alheio, remoto. E, para o bem ou para o mal, programas de TV como "Pânico" e "CQC", ao retratarem os políticos como verdadeiros imbecis, acabaram agravando esse sentimento e essa imagem da política tradicional. A política partidária e parlamentar não é um atrativo para essa juventude. Os jovens que conheço e querem fazer alguma coisa vão para atividades religiosas ou filantrópicas, porque os resultados são rápidos. Ser professor de um pré-vestibular comunitário, por exemplo, permite a eles ver um resultado imediato. Os partidos são uma invenção do século XIX, não podemos esquecer disso, e terão muitas dificuldades nos próximos anos. Eles conseguiram se atualizar para a era da TV e do rádio, mas ainda não conseguiram se modernizar para serem organizações da era digital.
O sr. vê a Rede Sustentabilidade como uma tentativa de adaptação a essa era?
Estamos no final de uma transição da TV para outra forma de comunicação entre Estado, sociedade e partidos. No passado, partido tinha que ter uma sede. Mas, agora, o partido vai ter que ter uma sede ou um site? Ou uma página no Facebook? A gente não sabe mais. O fato é que, para esses jovens, o partido é muito pouco atraente. O PSDB e o PT têm esse desafio. Dilma deverá ser a última presidente do Brasil que se socializou na agenda da ditadura. Depois dela, todos terão sido socializados na agenda da transição e, daqui a pouco, na agenda da democracia. Quando olhamos para o PSDB de São Paulo, que governou o estado por 20 anos, qual é o quadro expressivo na faixa de 40 anos que eles criaram para a política nacional? Nenhum. Isso é grave. O Lula percebeu isso numa entrevista: "Não dá para sair novamente com a Marta (Suplicy) para a prefeitura de São Paulo, nós precisamos renovar esse partido". E o PT do Rio, com o Lindbergh (Farias), pode ser bem sucedido nessa renovação também. É um enorme desafio e, por enquanto, não vejo nenhum partido à altura para responder a esse novo cenário.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A força de Marina (Os Bastidores da Política - Cristiana Lôbo - G1)

Num encontro que tiveram no mês de dezembro, Marina Silva e Eduardo Campos chegaram a um acordo: no Rio e em São Paulo caberá à ex-ministra conduzir a campanha estadual (se com candidato próprio ou uma outra aliança) que será o palanque de Eduardo na disputa presidencial.  A ideia é que nestes dois Estados Marina seja “a cara” da campanha presidencial do PSB e, assim, consiga transferir votos para  Campos.
Mesmo com a preferência do PSB estadual por uma aliança em São Paulo com o PSDB de Geraldo Alckmin, Eduardo Campos concordou com a proposta de Marina. Nestes dois Estados é grande o contingente de eleitorado jovem e há uma avaliação de que a proposta de uma “nova política” como propõem tem uma boa acolhida neste público. Além disso, Eduardo Campos tem baixo conhecimento nestes dois Estados por isso mais dificuldade para conquistar eleitores. Já Marina, ao contrário, foi bem votada em 2010 e tem potencial para transferir votos.
O PSB fez pesquisa interna sobre a intenção de votos em alguns Estados do país. O resultado animou os socialistas. Quando é apresentada a chapa Eduardo Campos e Marina Silva, contra Dilma Rousseff e Michel Temer e também contra Aécio Neves com José Serra (chapa pouco provável, mas testada pelo PSB), Eduardo Campos ganha pontos de forma significativa. No Rio, chega a superar Aécio Neves. Isso ajudou na decisão de entregar a campanha nos dois Estados para Marina. A força eleitoral dela pode render dividendos para a chapa. Por isso mesmo, o PSB espera para este início de ano que Marina anuncie que será mesmo a vice na chapa com Eduardo Campos.
 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Panorama Político - 09-01-2014 (O Globo - Ilimar Franco)
Centralismo democrático            

                A Executiva nacional do PSDB vai aprovar resolução, no início de fevereiro, retirando a autonomia dos diretórios regionais para fechar alianças. As decisões dos estados serão submetidas ao aval da direção nacional e aos interesses da candidatura de Aécio Neves ao Planalto. Os tucanos querem evitar acordos que favoreçam candidatos à Câmara, mas não a de sua candidatura a presidente.

Comitê de recepção
Ao retirar a autonomia dos estados para fazer alianças, o comando do PSDB quer evitar que seus caciques regionais se juntem a adversários no plano nacional. A cúpula tucana não quer submeter Aécio Neves aos apetites de suas bancadas estaduais. Estas, poderiam promover acordos para reeleger seus deputados, mesmo deixando Aécio sem palanque. No pleito de 1989, o candidato do PMDB, Orestes Quércia, chegou a aeroportos no Nordeste sem ninguém para recebê-lo. Em 1994, para evitar que isso ocorresse com o ex-presidente Fernando Henrique, o então presidente do PFL, Jorge Bornhausen, se lançou candidato ao governo de Santa Catarina.

"Meu amigo Eduardo (Campos) vai precisar endurecer o couro para conviver com o baixo padrão ético com que o PT enfrenta os adversários” 

Aécio Neves
Presidente do PSDB e senador (MG)

Fato consumado
O comando do PMDB garante que a candidatura do vice Luiz Fernando Pezão ao governo do Rio está sacramentada. Dizem que após o governador Sérgio Cabral deixar o cargo, em março, ninguém vai impedir Pezão de do de concorrer à reeleição.


A sucessora
Eliane Aquino, mulher do governador de Sergipe Marcelo Déda, morto em dezembro passado em decorrência de um câncer, deverá concorrer ao Senado no lugar de seu marido, que concorreria à vaga. Entre os partidos aliados (PT, PSB e PMDB), a indicação é consenso e entendida como uma homenagem ao trabalho político de Déda.

Retrato do momento
Adversários do PT do Rio, de todas as matizes, avaliam que a candidatura ao governo do senador Lindbergh Farias “não explodiu”. O petista tem se mantido numa posição apenas discreta, abaixo de Anthony Garotinho e de Marcelo Crivella.

Apostando em novos ares
O governo vai antecipar a entrada do consórcio Changi Airports/Odebrecht no Galeão. Isso deveria ocorrer em agosto, após a Copa. Mas ele vai começar a operar em 15 de janeiro, na entrega do plano de trabalho ao ministro da Aviação Civil, Moreira Franco. A antecipação ocorrerá também no Aeroporto de Confins, já na próxima semana.

Abaixo de zero
O governo vai licitar empresa de refrigeração para amenizar o calor no terminal de passageiros do Aeroporto Santos Dumont. Para evitar empresas sem qualificação, um dos requisitos do edital será know-how em refrigeração de grandes ambientes.

E por falar em atraso
De todos os aeroportos em obras, o que está dando maior dor de cabeça ao governo é o de Fortaleza. A reforma da pista é considerada lenta e um dos temores é o de que, nesse ritmo, não seja concluída até o começo da Copa, em junho.

O Ministério da Saúde deixou de pagar emendas de muitos deputados. Elas se destinavam a hospitais, Santas Casas e instituições inadimplentes.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Jogos ocultos de Eduardo Campos

5/1/2014 15:41
Por Antonio Lassance - de São Paulo


Eduardo Campos, presidente do PSB, assina a ficha preenchida por Marina Silva
Eduardo Campos, presidente do PSB, assina a ficha preenchida por Marina Silva
Por mais paradoxal que pareça, a Eduardo Campos pode interessar até mais uma vitória de Dilma Rousseff, com a ajuda de sua mão em um eventual segundo turno, do que uma candidatura de Marina Silva voando pelo PSB – mesmo que Marina demonstre mais intenções de voto em pesquisas. A razão maior é muito simples. Ele quer ser um protagonista, e não um coadjuvante em 2014. Se não puder vencer, Campos não abre mão de, pelo menos, ser um dos grandes responsáveis por decidir a parada das próximas eleições presidenciais.
Campos avalia que pode haver segundo turno, e que o candidato preferencial das oposições pode ser ele. Esteja sua previsão certa ou errada, o mais importante é saber que é com ela que o candidato trabalha no momento. E mesmo que não seja Campos o escolhido para enfrentar Dilma em um eventual segundo turno, o terceiro lugar na disputa seria um grande trunfo para quem quer fortalecer-se politicamente.
Se terceirizasse a cabeça de chapa para Marina Silva, Campos abdicaria do controle sobre a estratégia do PSB na campanha e ficaria refém de Marina e de sua Rede. Abriria mão de ser o fiador maior do candidato vencedor, se houver segundo turno.
Como eleições são feitas não apenas para se eleger presidentes, mas também governadores e montar as coalizões dos governos (o federal e os estaduais), Campos teria seu papel e o de seu partido diminuído se não estivesse à frente da candidatura. Ele quer a Presidência, mas precisa, acima de tudo, sair com o PSB maior do que entrou em 2014.
Uma votação expressiva de Marina seria uma vitória claramente imputada a ela, pessoalmente, e não ao PSB. Terminada a disputa, o partido de Marina, a Rede, seria formado e roubaria a cena. A cena, deputados, senadores e talvez até alguns governadores.
Os planos do pré-candidato do PSB dependem da amarração de três fatores: a aliança tática com o PSDB nos palanques estaduais; convencer Marina a ser sua vice; e ter votos suficientes para ajudar a forçar um segundo turno. Se ficar em segundo, melhor para ele, mas ficar em terceiro também lhe interessa. Ver Marina em seu lugar, nem pensar. É o pior dos mundos para Eduardo Campos, só comparável a uma vitória de Dilma Rousseff em primeiro turno.
O interesse de forçar uma eleição em dois turnos explica o movimento recente de Campos de trazer o PSDB para seu governo em Pernambuco e para o governo do PSB no Piauí. O gesto foi feito para agradar os tucanos nacionalmente e diminuir o temor que têm de serem apenas um trampolim para Campos, que se projetaria em estados governados pelo PSDB.
Tais temores se ampliaram desde a filiação de Marina Silva ao PSB, em outubro de 2013. A jogada fez os tucanos sentirem que Campos estava pisando sobre suas cabeças. Para Aécio Neves, suas chances de ir para o segundo turno aumentam com Campos e diminuem muito com Marina. Mais uma vez, os fatores envolvidos favorecem a opção pelo nome do governador de Pernambuco e tornam a escolha por Marina contraproducente para o PSB.
De todo modo, Campos precisa colar em Marina. Pouco conhecido no país, precisa dela como vice. Quer o seu “recall” – o retrospecto da eleição passada que tornou Marina muito conhecida do eleitorado. No entanto, a vice, que era dada como certa, tornou-se depois uma séria dúvida.
Marina também sabe fazer cálculos e tem seus próprios interesses, que são um pouco maiores do que os de apenas servir de perfume à candidatura de Campos.
As alianças do governador, dentro e fora de Pernambuco, criaram uma saia justíssima para a Rede e deixaram no ar um sentimento do tipo: “façam o que Marina diz, mas não façam o que o Eduardo faz”. A dobradinha que melhora a imagem de Campos trouxe desgastes à de Marina, conforme várias pesquisas atestaram.

Marina cogitou voltar atrás na ideia de ser vice. A informação, antecipada por Carta Maior e que, depois, se tornou notícia corrente, criou um problema na candidatura do PSB. O preço pago por Campos para evitar o recuo foi negociar com a Rede a disputa por São Paulo. Campos rifou o chefe do PSB no estado, que já estava nos braços do governador Geraldo Alckmin e seria vice na chapa do PSDB.
Em troca, a Rede quer lançar ou Luíza Erundina (PSB-SP). Uma segunda opção aventada é a do vereador Ricardo Young (PPS-SP), também vinculado à Rede. Erundina ainda resiste a perder o mandato de deputada federal para cumprir o papel de D. Quixote. Young tem resistências internas do próprio PPS, principalmente do presidente nacional, Roberto Freire, aliado contumaz do PSDB paulista.
Eduardo Campos e Marina Silva podem estar juntos na mesma equipe, mas são tão parceiros quanto eram Fernando Alonso e Felipe Massa na Ferrari. São tão próximos quanto eram Michael Schumacher e Rubinho Barrichello. A função de Marina Silva é a de se conformar com a segunda posição.
A expressão “jogos ocultos” ou “jogos intrincados” (“nested games”) se tornou comum na Ciência Política para explicar razões que a própria razão comum desconhece. Em geral, algo que parece inexplicável, ou que só tem razões abjetas, como as dos sete pecados capitais da maldade humana (da soberba à inveja, passando pela cobiça), na verdade pode ser melhor elucidado se entendermos o grande tabuleiro no qual um ator está inserido, e a maneira como ele move suas peças.
Cada movimento é feito com o respaldo de um conjunto de outras peças e movimentos do próprio ator, mas também levando em conta os lances dos adversários. Um movimento óbvio e previsível é, muitas vezes, o menos recomendável. É por isso que Eduardo Campos, mesmo sendo uma escolha com menos intenções de voto, é candidato a presidente, e não se fala mais nisso. Marina Silva será, no máximo, sua vice.
Antonio Lassance é doutor em Ciência Política.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Marina veta apoio do PSB a Alckmin em SP e concorda em ser lançada logo a vice na chapa de Campos

  • Ex-senadora acerta que sua candidatura a vice será lançada ainda neste mês ou no máximo até meados de fevereiro
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Marina Silva e Eduardo Campos, principais nomes do PSB
Foto: Marcos Alves / O Globo
Marina Silva e Eduardo Campos, principais nomes do PSB Marcos Alves / O Globo
BRASÍLIA — A ex-ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, ganhou a queda de braço com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, aspirante a candidato do PSB à sucessão da presidente Dilma Rousseff. O PSB não apoiará o governador Geraldo Alckmin (PSB), de São Paulo, candidato à reeleição.
Em compensação, Marina concordou em ter sua candidatura a vice de Eduardo lançada ainda neste mês – ou no máximo até meados de fevereiro. No próximo dia 17 haverá em Recife um encontro informal de dirigentes nacionais do PSB. Entre outros assuntos, discutirão nomes para a vaga de Alckmin.


Eduardo guarda na memória do seu computador pessoal os resultados de pesquisa recente encomendada pelo PSB sobre a eleição em São Paulo. Uma das questões propostas aos entrevistados testou a popularidade de Marina Silva e o alcance do seu apoio como vice à candidatura de Eduardo.
A popularidade de Marina bateu a casa dos 20%. Com o apoio dela, Eduardo ultrapassa Aécio Neves, aspirante a candidato do PSDB a presidente, nas maiores cidades do Estado. Os resultados da pesquisa convenceram o governador de Pernambuco a acatar o veto de Marina ao nome de Alckmin.
A ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSB) resiste ao assédio de Marina para ser candidata ao governo do Estado. Eduardo resiste à pressão da cúpula do PSB paulista para que o partido apoie a reeleição de Alckmin e continue fazendo parte do governo dele. O PSB precisa de candidato próprio em São Paulo para dar palanque a Eduardo.
Em breve, Aécio retribuirá o gesto de Eduardo que oficializou em Pernambuco a entrada do PSDB no seu governo. O partido ganhou uma secretaria de Estado e a chefia do Detran. O candidato de Aécio ao governo de Minas Gerais será o atual prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB).
Em dezembro último, Eduardo e Aécio se reuniram no Rio de Janeiro e acertaram que dividirão o mesmo palanque nos Estados onde isso seja conveniente ao PSDB e ao PSB. Lacerda apoiará Aécio, apesar de ser filiado ao partido de Eduardo. Mas Eduardo, que nada tinha a perder em Minas, pelo menos ganhou um palanque para pisar.
Palanques comuns a Eduardo e Aécio têm muito a ver com as sucessões estaduais. O PSDB enfrentará em Minas a forte candidatura de Fernando Pimentel (PT), atual ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Márcio Lacerda é o melhor nome de que pode dispor Aécio para vencer Pimentel.
PTB e PT deixaram o governo Eduardo em outubro passado. Ou concorrerão à sucessão de Eduardo com um único candidato ou com dois – que, num eventual segundo turno, estarão juntos. O PSDB, que no Estado era oposição a Eduardo, agora passará para o lado dele.
Na Paraíba, o senador Cássio Cunha Lima (PSDB) pretende disputar o governo do Estado. Nas contas de Eduardo, ali o PSDB acabará apoiando a reeleição do atual governador, que é do PSB. No Paraná, Beto Richa (PSDB), governador, ganhará o apoio do PSB. O vice dele é do PSB.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/marina-veta-apoio-do-psb-alckmin-em-sp-concorda-em-ser-lancada-logo-vice-na-chapa-de-campos-11203979#ixzz2pQ6qBmxK
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Joaquim Barbosa mostra disposição para ser candidato em 2014

31/12/2013 12:11
Por Redação - do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília


Não foi à toa que, às vésperas de 2014, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) disparou um petardo contra as evidentes pretensões do presidente da Suprema Corte de Justiça do país, Joaquim Barbosa, concorrer à Presidência da República no ano que vem. Apesar da dor nas costas, Barbosa foi ao samba no Andaraí, sob o forte calor que, nesta segunda-feira, atingiu marcas históricas na Cidade do Rio de Janeiro. Para FHC, falta “traquejo político” ao magistrado, que chega à raia das eleições com fama de xerife contra a corrupção, conceituando-se à direita como adversário da presidenta Dilma Rousseff, m
Barbosa chega ao camarote do Renascença, no Andaraí
Barbosa chega ao camarote do Renascença, no Andaraí
as considerado à esquerda como apenas um homem mau, capaz de mandar o ex-deputado José Genoino, um homem digno e doente, à cela do Presídio da Papuda, em Brasília.
Camisa polo e tênis, Barbosa atendeu às tietes, fez fotos, distribuiu sorrisos, comeu aipim com carne seca, bebeu cerveja, foi simpático com os jornalistas e arriscou cantarolar “Quem te viu, quem te vê“, de Chico Buarque de Hollanda, que não estava lá para assistir a isso. Não faltaram as palmas de costume, mas os apupos estavam presentes, para o desconforto do relator de um processo que a jornalista Hildegard Angel chama de ‘mentirão’, como ficou conhecida a história contada por Roberto Jefferson, ex-deputado e condenado por corrupção passiva na Ação Penal 470, do Supremo Tribunal Federal (STF), de que o ex-ministro José Dirceu usava dinheiro público para comprar votos de parlamentares. Embora o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato afirme ter provas suficientes para derrubar “a farsa do ‘mensalão“, a mídia conservadora tratou de criar, em Barbosa, o mito do homem simples, que vem de uma família pobre e se torna o algoz do “maior esquema de corrupção já visto no Brasil”.
Enquanto Jefferson aguarda em sua confortável residência, na aprazível Levy Gasparian, uma pequena cidade no interior fluminense, que o sistema penitenciário nacional providencie – ou não – os salmões necessários à dieta balanceada do presidente de Honra do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), para que ele possa ser recolhido ao xadrez, ou não, Genoino amarga a incerteza de voltar à Papuda, onde “não vai durar muito”, segundo prevê a filha, Miruna, em carta distribuída a jornalistas no Brasil e no exterior. Se o PTB, de Jefferson, poderá apoiar uma candidatura como a de Barbosa, do PT, de Genoino, o presidente do STF sabe, de antemão, que receberá as críticas mais ácidas e a oposição ferrenha de uma militância aguerrida. Sob uma perspectiva política não é difícil escolher, diante das opções, quem mandar para a cadeia e quem poderá cumprir a pena estabelecida em prisão domiciliar.
O sociólogo FHC não perdeu de vista o componente eleitoral que se aferroa, como no samba de Chico Buarque, ao currículo do dublê de juiz e futuro candidato embalado na pesquisa Datafolha, realizada no final de novembro, que o coloca com 15% das intenções de voto para a Presidência em 2014. No mesmo cenário, a presidenta Dilma Rousseff lidera com 44%, o senador Aécio Neves (PSDB) tem 14% e o governador Eduardo Campos (PSB) aparece com 9%.
– É difícil imaginar Barbosa na vida partidária, ele não tem o traquejo, o treinamento para isso, uma coisa é ter uma carreira de juiz, outra coisa é ter a capacidade de liderar um país. Talvez o Senado, a vice-presidência. Não creio que ele tenha as características necessárias para conduzir o Brasil de maneira a não provocar grandes crises. Confio no bom senso dele – pondera FHC, que integra a campanha de Aécio Neves, senador mineiro e pré-candidato tucano ao Palácio do Planalto.
Homem mau
Mais do que inexperiente na política, Barbosa apresenta-se aos eleitores como “ferrabrás”, sujeito que “gosta de se passar por valente” segundo o Caldas Aulete, e surpreendeu os parlamentares, na semana passada, ao encaminhar ofício para os governos de São Paulo e do Distrito Federal perguntando se os sistemas prisionais paulista e distrital possuem condições de receber o ex-deputado José Genoino (SP).
Cardíaco, operado há menos de seis meses, Genoino, um dos condenados na AP 470, está em prisão domiciliar temporária, na casa de uma filha, em Brasília, enquanto se restabelece da cirurgia que realizou em julho passado. Ao mesmo tempo, aguarda resposta sobre o pedido feito pelo advogado de defesa para que a pena seja revertida de regime semiaberto para regime domiciliar, em função do seu estado de saúde.
Na prática, o ministro, que já possui em suas mãos dois laudos médicos sobre o paciente e parecer do procurador-geral da República, Rodrigo Janot – este último documento, inclusive, é favorável a que Genoino fique em casa em função dos problemas clínicos – não tem prazo para emitir sua resposta, mas o que se comenta tanto no Supremo como no Congresso Nacional é que poderia ter dado retorno ao pedido pelo menos três semanas atrás, seja negando, seja acatando a reversão da pena.
O encaminhamento do ofício, há poucos dias do Natal foi visto, tanto por deputados e senadores petistas como pelos demais parlamentares da base aliada, como um gesto de revanche, em função do ato de desagravo aos condenados na última sexta-feira, durante o Congresso Nacional do PT. Na ocasião, vários dirigentes do partido acusaram o presidente do STF de “tentar aparecer para a mídia” e de ter adotado, durante o julgamento da AP 470, “comportamento pouco condizente ao de que se espera de um ministro”, como colocou o deputado João Paulo Cunha (SP) – um dos condenados no processo, mas que ainda aguarda a apreciação dos embargos infringentes.
Líder do partido na Câmara, José Guimarães (CE), irmão de Genoino, demonstrou estar abalado e evitou dar declarações a respeito, com o argumento de que estaria tentando preservar a família e evitar maior especulação em torno do assunto. Mas coube à filha, Miruna, o pronunciamento mais contundente:
“Tenho que começar minha semana sabendo que o JB (Joaquim Barbosa) pediu um parecer, outro parecer, pelo amor de Deus, para o juiz de execução de Brasília e de São Paulo perguntando se eles têm condições de receber meu pai nos presídios destes locais. Alguém por favor pode pedir, rezar, pensar, desejar, que nossa tortura tenha fim? Alguém pode me explicar por que tenho de passar por esse sofrimento? Por que não posso planejar o natal com minha família? Por quê? Por quê?”, destacou Miruna, na nota.
Num apelo mais enfático, a filha do ex-deputado afirma, ainda, que considera o gesto “falta de humanidade” e lembra que o Ministério Público já emitiu parecer favorável a que Genoino seja colocado em prisão domiciliar. “Mas não se conformam e precisam pedir aos juízes que digam se ele não pode mesmo ir para a prisão. Você acha que eles vão dizer o quê? Todos só o que querem é prender meu pai atrás das grades, mas que todos lembrem que terão de responder por sua vida”, acentuou.
O laudo médico elaborado por profissionais do Hospital Universitário de Brasília (HUB), feito a pedido do ministro, concluiu que Genoino é portador de cardiopatia e fez uma cirurgia delicada, mas atesta que não é considerado imprescindível que ele permaneça em ambiente domiciliar. Apesar disso, a mesma junta médica afirmou que o ex-deputado precisa receber acompanhamento médico periódico, ter dieta hipossódica (com pouco sal) e praticar atividade física moderada.
Em seu parecer, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ponderou que como o laudo comprovou a necessidade de atendimento médico pelo condenado, além de uso rigoroso de medicação e dieta restrita, o sistema prisional não garante a Genoino os cuidados de que ele necessita. “Ressalte-se que ao Estado incube o dever de cuidado, assistência e proteção à saúde do preso, não sendo possível sua omissão diante de situação que imponha risco real e iminente ao condenado de ter agravado seu estado de saúde ou até vir a óbito, caso não receba o atendimento adequado”, afirmou.



 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Dilma e Campos entre afagos e alfinetadas

Ambos participaram da cerimônia de conclusão da plataforma P-62
   




 

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No primeiro encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, desde a saída do PSB da base de apoio ao Planalto, os dois pré-candidatos à Presidência trocaram afagos, mas também pequenas alfinetadas sobre o financiamento de obras no Estado.  
Em Ipojuca, a 55 km do Recife, Campos deu trégua nas críticas e elogiou Dilma. “[Este momento] poderia ser entendido como encontro entre quadros que amanhã poderão viver legitimamente uma disputa democrática. Mas não”, disse. “É um encontro entre uma presidenta eleita democraticamente e um governador reeleito, que sabem separar o interesse público da disputa política.”

Ambos participaram, no porto de Suape, de cerimônia de conclusão da plataforma de petróleo P-62. Antes, visitaram obras da refinaria Abreu e Lima, da Petrobras. Campos citou Dilma como “brasileira honrada que ajudou a construção do Brasil” e deu a entender que deixará o cargo no fim de março para se dedicar à campanha.

Dilma retribuiu as amabilidades (em termos como “recepção fraterna” e “alto nível das relações”), mas fez questão de frisar que o investimento de R$ 1,2 bilhão no Arco Metropolitano do Recife terá “dinheiro exclusivo” federal. Obra-chave de infraestrutura para o Estado, o projeto do anel viário foi desenvolvido pela gestão de Campos, mas assumido pelo Palácio do Planalto em março.

Em nota após o evento, o governador disse que sua gestão se “adiantou” ao Dnit, que teria a “competência” de tocar o projeto desde o início. “Nos adiantamos para que o povo se beneficiasse o quanto antes”, diz o texto. Em discurso, Campos disse que a “nova política” requer que os recursos para obras sejam tratados como “dinheiro do povo”. “A nova política nos obriga sempre a olhar para a frente [...], pensar um futuro em que os recursos públicos pertençam ao povo”, afirmou.

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Médico Clínico e Sanitarista - Doutor em Saúde Pública - Coronel Reformado do Quadro de Dentistas do Exército. Autor dos livros "Sistemismo Ecológico Cibernético", "Sistemas, Ambiente e Mecanismos de Controle" e da Tese de Livre-Docência: "Profilaxia dos Acidentes de Trânsito" - Professor Adjunto IV da Faculdade de Medicina (UFF) - Disciplinas: Epidemiologia, Saúde Comunitária e Sistemas de Saúde. Professor Titular de Metodologia da Pesquisa Científica - Fundação Educacional Serra dos Órgãos (FESO). Presidete do Diretório Acadêmico da Faculdade Fluminense de Odontologia. Fundador do PDT, ao lado de Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Carlos Lupi, Wilson Fadul, Maria José Latgé, Eduardo Azeredo Costa, Alceu Colares, Trajano Ribeiro, Eduardo Chuy, Rosalda Paim e outros. Ex-Membro do Diretório Regional do PDT/RJ. Fundador do Movimento Verde do PDT/RJ. Foi Diretor-Geral do Departamento Geral de Higiene e Vigilância Sanitária, da Secretaria de Estado de Saúde e Higiene/RJ, durante todo o primeiro mandato do Governador Brizola.